Não se fazem casas redondas porquê?
Essas são só para os heróis habitarem. Heróis há poucos.
Porquê?
Porquê o quê?
Porque são para heróis?
Não te podes esconder em recantos obscuros...
Na casa aqui de Vitorino Nemésio havia um quarto redondo.
Oh, mas esse era poeta!
...todos os poetas são hérois. Nem todos os heróis são poetas...
O relógio parou na uma.
Não lhe dás corda?
Dá azar as mulheres darem corda a esses relógios antigos...
Se não lhe der corda ninguém...
Dou eu, que não paro na uma para sempre.
...apesar dos azares, antes avançar,,,
Podiamos ir comer bolachas com compota...
De quê e para quê?
De morango, para saborearmos o gosto do vermelho...
Em pequena custumava comer cerejas...
Estamos em Janeiro.
Está frio então?
Há bocado estava...
Eu não o sinto...
E acabámos de nos conhecer...
As da minha antiga casa eram todas brancas...
Brancas mesmo?
Sim, no dia em que as pintei.
E nos outros não?
Vão escurecendo...
Pois, no ínicio é que temos de saber escolher a cor que menos se suja...
Talvez se possa pintar por cima.
...As paredes...
É um sentimento com cor...puro e límpido como a água... aquece-nos por dentro... faz-nos adormecer felizes...faz-nos bem...mas o seu lado negro pode ser viciante, obcessivo...
E desde quando é que o chá é um sentimento?
É uma coisa mesmo muito segura, o ferro.
O fogo derrete-o.
É verdade, mas assim que o fogo passa ele é novamente seguro...pode é ter uma nova forma.
A água corroi-o, carcóme-o lentamente até não sobrar nada.
Logo a água que parece tão mais frágil...
Não se pode substimar.
...devagar...
Uma vez caí numa poça maior que aquela...
Molhaste-te todo, não?
Sim.
Adoeceste?
Uns dias...
Devias ter mudado imediatamente de roupa.
Oh, uma pessoa acaba sempre por se secar...
...dias de chuva...
Se eu puxar por este fio acontece o quê?
Desenrola-se, que pergunta...
Até onde?
Até ao céu.
Tem nós...alguém lhe mexeu antes?
Não, já vieram de fábrica.
Tenho de os desfazer ou deixo assim?
Tu lá sabes, se não desfizeres não dá pra chegar ao céu...
...podem sempre ignorar-se....
Gosto de sorrisos..
São sempre bons de se sentir.
São em forma de semi-lua...
é provável que estejam mais altos que ela...
...um sorriso para contrariar a gravidade...
Gostava de ter um daqueles xailes...
Para te aqueceres?
Para poder ficar mais bonita.
Então...a que chamam impossibilidade?
Mudas sempre de conversa!
...mais distâncias...
As placas de trânsito.
hum?
Nada. Diferentes cores, diferentes formas, diferentes objectivos...
Todos com sua missão, todos importantes...
É não é?
...são pessoas...
Farei uma titulação com fenolfetaleína. Na perfeição!
Se te enganas um nadinha estragas todo o trabalho.
Como tudo. Nada volta atrás.
Sim, mas há coisas que se remedeiam. Aqui terás de recomeçar tudo.
Devíamos fazer mais titulações...
...Outra vez...
Às vezes dá-me a sensação de que o céu é mesmo aqui.
E se ele nos esmaga?
Não. Às vezes dá-me a sensação de que o céu é mesmo aqui.
Então já não temos mais que olhar para cima.
Não. Às vezes dá-me a sensação de que o céu é mesmo aqui.
Se caírem estrelas cadentes, que são não mais que meteoritos, ainda nos magoam antes de se derreterem no percurso.
Não. Às vezes dá-me a sensaçãod e que o céu é mesmo aqui.
A termosfera não é um bom sítio para morarmos.
...
Deixa. Queria só dar-te uma estrela. Agora já não dá.
Se dermos um pulinho ficamos desamparados no espaço.
....há almas a falar em diferentes dialectos...
Mas "só estás só" ou "só, estás só"?
É o muito, o mais.
"Só, estás só" e estamos lado a lado, mas o nosso estado não se altera.
Pois, não chega sentarmo-nos no mesmo banco.
Vou embora então.
Não. Assim é corrente de ar de mais um lado.
É isso que te afecta?
As correntes de ar?
Sim...
É. As tardes ocas.
Seremos velhos já e nem notámos?
Eu nasci velho.
Há...
...
Monotonias insuportáveis nos fins de tarde...
Tens ido às sessões?
Tenho.
Gostas de ir?
Gosto.
Porquê?
É bom.
Fazes lá o quê?
Pratico.
Também andei em sessões parecidas, sabias?
Não.
Eu gostava, era relaxante. Tu relaxas nelas?
Sim.
....
E outros monólogos assistidos.
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